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Sexta-feira, Julho 03, 2009
[CONTO] Sara
Recorte de "Tears in my eyes" de Etoile06
Era uma vez uma garota, seu nome era Sara...
"- Eu não suporto mais viver com você!! Eu sou assim! Será que nunca vai entender isto?! Eu SOU assim! Não tem nada de errado comigo! Eu não SINTO que exista algo de errado comigo! Dá pra entender?!"
E a briga durou a noite inteira, terminando com uma batida seca de porta, um barulho que parecia rachar algo dentro de sua alma. Mais tarde, tudo que ela pôde fazer foi:
1) Fechar os olhos bem devagar;
2) Suspirar profundamente;
3) Deitar encolhida sobre a cama;
4) Esforçar-se pra não cair no velho clichê de cair em prantos depois de mais uma briga com a mãe.
Conseguiu livrar-se do 4º item, ao menos por um tempo, mas não pôde evitar uma cena que invadiu sua mente sem pedir licença.
"Olá, Sara com 4 anos..."
Brincava toda feliz com suas bonecas. Mal terminara de aprender a dizer suas primeiras palavras e já dava indícios de que seria uma ótima mãe. Um ano mais tarde as bonecas ficariam obsoletas. Seu irmão nasceria, e seria seu primeiro "filho de verdade". Mas ela não sabia disto naquela ocasião, de modos que as bonecas foram as primeiras a receber aqueles lampejos de um sentimento até então indefinido, ainda sem saber muito bem o que fazer com aquele quentinho gostoso que brotava de seu peito.
"Ela era tão..."
Era uma garota linda. Doze anos de toda a exuberância que aquela idade lhe permitia. Sara não sabia bem como explicar o que estava sentindo por ela. Sua pele estava arrepiada, seu coração acelerado, parecia ter o dobro de seu próprio tamanho, mas sentia-se pelo menos dez vezes mais leve, como se seu corpo inteiro se espalhasse no ar, pegando carona com aquela brisa gostosa que levava até suas narinas aquele perfume. Talvez, se alguém lhe perguntasse naquele momento o que sentia, Sara diria que era vontade de ter aquela beleza toda só pra ela, e encontrar uma forma de fazê-la sentir o quanto era bela, e o quanto havia mexido consigo.
"- Nunca mais se atreva a dizer isto sobre ele!!"
Sua bochecha ainda formigava. Sabia que segundos depois começaria a queimar, a pele a ficar vermelha, inchada. Mas a voz de sua mãe falava mais alto que qualquer coisa que seu corpo tentasse lhe dizer. Era como se pegasse uma parte dela e jogasse contra a parede. Algo de que ela gostava muito. Algo que precisava de certo cuidado na hora de manusear. E ela via aquele algo aos poucos se desfazendo em pedaços, mas ainda conseguia manter-se esperançosa, imaginando que mais tarde aquilo tudo não significaria quase nada.
"Com o tempo eu aprendi que o mais tarde seria sempre adiado..."
Perdeu a conta de quantos copos havia tomado. Foi praticamente um milagre ter conseguido chegar em casa sem abraçar a idéia de permanecer deitada na calçada depois do terceiro tombo que tomou. Sentia a mente anestesiada, insensível a tudo. O corte no joelho, o gosto de cigarro e sexo na boca, aquele cheiro de suor alheio e um ou dois perfumes que definitivamente não eram o dela. No dia seguinte acordaria com mais uma daquelas dores de cabeça que chegava a dar náuseas, uma sensação horrível no peito, uma vontade de chorar um choro que não vinha e afogava, e a certeza de que ainda não conseguira encontrar a estratégia perfeita pra enganar-se totalmente.
"Eu a amo tanto que não saberia nem por onde começar a demonstrar isto..."
... e a olhava com aquele ar de orgulho materno. Mesmo não sendo sua mãe, era como se fosse. Sabia que era apenas sua irmã caçula, mas há muito tempo havia abandonado conceitos que pra ela não significavam quase nada. Amor, no fundo, partia de um só princípio, mesmo que assumisse formas de demonstração tão distintas, a ponto de muitas vezes aproximá-lo perigosamente do ódio. Mas não era o caso. Só desejava nutrir os sonhos doces daquela menina, alimentar aquele sorriso lindo, e vê-la crescer como o ser mais feliz da face da Terra. E só.
"- Sabe, Sara, eu olho pra esses seus olhos cinzentos, que nuns dias parecem de um verde desbotado, e em outros de um azul um tanto incerto, e tudo que vejo por trás deles é um grande enigma. E é por isto que você me fascina tanto."
O rapaz terminou de dizer-lhe as duas frases que ecoariam por sua mente em muitas ocasiões futuras com um sorriso tão enigmático quanto o brilho sereno de seus olhos. Pensaria muito naquelas duas frases, mais do que nele, como se elas guardassem uma verdade que não pertencia a ninguém mais além dela.
"- Ela sempre foi muito dada, sabe? Era algo bonitinho de se ver quando era pequena. Todos achavam uma gracinha aquela meiguice toda, mas depois de um tempo é o tipo de coisa que vai desaparecendo. Acontece com a maioria delas. Mas não com ela! Nãaao! Ela TINHA que ser diferente de todas as outras! E agora ela veio com aquela história absurda de que... (...) O quê?! Como assim é culpa minha?! Vai começar de novo com esse papo de que ela não devia ter ficado comigo desde que nos separamos? (...) Olha aqui, se tem alguém que é culpado nessa história toda é ela! A gente devia ter dado um basta naquilo antes que chegasse a esse ponto!"
Sua vontade era a de tomar o telefone de sua mão e jogar no meio da rua, torcendo para que passasse um caminhão bem na hora, acertando-o em cheio com a roda. Mas tudo que fez foi ouvir a primeira das muitas conversas que seus pais teriam depois da primeira vez que trouxe aquele assunto à tona. Aquela mancha vermelha e sanguínea que turvava pedaços de sua inocência.
"- Shhh! Fica quietinha, tá? Vai terminar logo..."
Suas mãos pequenas, do tamanho de bisnaguinhas Seven Boys, suavam. Uma dor aguda subia lá de baixo, e parecia espalhar-se por ela toda. Sentia um embrulho no estômago, uma vontade de vomitar. Uma saudade imensa de suas bonecas... e dos movimentos líquidos de seu irmãozinho que nem aprendera a chorar dentro daquela barrigona. Imaginava-o chorando por ela, mesmo sem saber ainda como seria seu rosto...
"Você é feia. Sabia? Muito feia. Eu odeio o seu corpo. Não consigo enxergar a beleza que vêem em você. Esses seios enormes, essa barriga... Você não merece nada do que te oferecem. Você..."
Viu a mão delicada surgindo atrás dela, pousando sobre seu ombro nu. Após a mão apareceu o rosto. Sua diva. Sua vida. "Ela é tão linda..." Enlaçou-lhe a barriga com os braços. Aquele toque era seu conforto. Aquele olhar de desejo, vindo dela, por alguns instantes fez com que se esquecesse do que vinha pensando há pouco. "Eu não mereço toda essa beleza... Mas, meu Deus, que isto dure mais esta noite, só esta..." E as duas, nudez com nudez, abraçaram-se, beijaram-se, e amaram-se durante mais aquela madrugada inteira.
"- Ela é louca por ter feito isto! Só pode! PRA QUE tentar acabar com tudo assim? Será que... Será que ela nunca notou o quanto os amigos gostam dela?!"
O suicídio não era novidade para Sara. Já havia se matado de muitas formas. Numa das primeiras cortou os pulsos. Lembrava-se nitidamente de sentir-se leve como um pássaro em pleno vôo enquanto o sangue corria pra fora de seu corpo, e da maneira como a mancha deixada na lâmina do gilete misturou-se com o pouco que escorrera dela quando caiu no chão do banheiro, formando um coração. "Bastante apropriado pra ocasião", pensou ela, "Tão dramática!", acrescentou, imaginando que seria isto o que Hiei diria diante daquela cena, ou talvez Vegeta, ou ambos.
"Aquele frasco inteiro de anti-depressivos com vodka quase deu certo..."
Outra vaga lembrança era a overdose de cocaína que a matou pela quarta ou quinta vez.
Era uma garota de muitas mortes, mesmo que nenhuma houvesse atingido o completo êxito.
"- Tem horas que, lembrando de todas as vezes que você tentou acabar com tudo, Sara, eu me pergunto se na verdade você só quisesse arrumar um jeito de matar apenas uma parte de você que não te agradava."
"Talvez seja isto", respondeu ela na ocasião, "ou talvez eu só não agüente mais viver menos do que eu sou capaz, e ser menos pras pessoas do que eu posso ser", esta última parte ficou só no pensamento.
"- Você precisa acreditar em mim!! Foi isto que aconteceu! Isto tudo tá voltando sem que eu tenha controle! Eu preciso que você acredite em mim!!"
Mas ela não acreditava. Não queria acreditar. Talvez fosse demais pra ela. Talvez ela só quisesse iludir-se um pouco mais, fingindo que sua consciência não a atormentava tanto quanto aquelas lembranças horríveis que assombravam sua filha.
"Eu não posso acreditar em você", parecia ouvir sua mãe lhe dizendo por trás daquele olhar que vestia-se de desprezo por fora, mas que por dentro parecia carregar mais medo do que qualquer outro sentimento simulado. Mas que medo seria aquele?
"- Sara, sabia que você é minha melhor amiga? Você é como uma irmã pra mim. Nem minhas irmãs são tão carinhosas como você é comigo. E eu não consigo enxergar a menor malícia nisto. É só... Não sei... amor puro e inocente!"
Esta era a resposta para o enigma. Aquele que o rapaz de sorriso tímido enxergara nela. Sara nasceu carregando aquilo em seu peito. Aquela coisa que não conseguia definir, mas que parecia implorar pra sair dela. E aos poucos saiu. Inicialmente sob a forma de brincadeiras. Depois veio aquela atração pela beleza de uma garota, sua colega de escola. Mas logo descobriu que não sentia atração apenas por garotas. Garotos também eram o alvo de seus desejos. Tentou se envolver com muitos deles. Achou a maioria brutos demais, sujos, insensíveis. Teve ótimas experiências com alguns poucos. A maioria eram tímidos, sensíveis demais pra serem confundidos com gays, e alguns eram, mas que apesar disto embarcavam na viagem, tamanha era a atração que ela conseguia exercer sobre eles.
"Essa coisa... eu não consigo controlar..."
Mas é assim mesmo, Sara. Pessoas dotadas dessa capacidade de amar sem preconceitos não conseguem controlar essa vontade enorme de espalhar esse amor. É algo que gera desespero muitas vezes.
"Eu não sei fazer com que ela acredite em mim..."
Sei que você sente que ela precisa acreditar, porque é uma parte de você que você sente a necessidade de partilhar com alguém, por mais doloroso e incômodo que seja. Mas você tem seus amigos, e muitos deles te amam tanto como amariam uma irmã que sempre ofereceu a eles a maior atenção e amor que poderia oferecer a alguém. Eles são sua família até mais do que sua própria família sanguínea é pra você.
"Eu nunca me senti bonita... Meu rosto é estranho. Não parece ser nem de homem e nem mulher... É como se até hoje eu não houvesse decidido..."
Mas você É bonita! E nada mais apropriado pra você do que essa beleza andrógina! Até aqui você foi capaz de amar tanto homens como mulheres, e se ofereceu pra eles de corpo e alma. Muitos viram isto como promiscuidade, mas no fundo você sabe que é outra coisa, não?
"Desespero..."
Também. Mas acho que está mais pra um impulso incontrolável de fazer com que aqueles que fazem com que se sinta bem, sintam-se tão bem quanto. Um desejo sem pudores. Uma vontade louca de espalhar esse desejo todo de sentir-se amada amando tanto quanto lhe for possível.
"E mesmo assim eu passei a me destruir..."
Porque ainda há poucos neste mundo capazes de compreender alguém como você. Existem poucos neste mundo prontos pra aceitar um ser tão cheio de um sentimento tão poderoso incapaz de direcioná-lo pra uma só pessoa, para apenas um sexo, seja o seu oposto ou seu igual. Talvez por isto você se sinta mais atraída por mulheres. Elas parecem compreender mais essa necessidade de troca, são mais carinhosas, mais sensíveis a sentimentos muitas vezes vagos, sutis.
"Às vezes eu só queria morrer..."
Não. Você nunca quis isto. Não de verdade. Sua fome de viver é maior do que qualquer desejo de morte. Você só queria acabar com aquelas partes de você que insistem em voltar pra te atormentar em sonhos e flashs de memória que lhe ocorrem sem aviso. Mas você sabe que não é se matando que vai acabar com isto, pelo menos não de uma forma satisfatória. Você sabe que não é se dopando, se enchendo de álcool e drogas a fim de destruir alguns neurônios, que você vai eliminar parte de seu passado.
"Eu me sinto suja por..."
Não se sinta! O que aconteceu com você naqueles dias sombrios de seu passado é motivo para que outras pessoas sintam-se sujas. Você não se ofereceu pra elas, não da forma como elas imaginavam. Como eu disse, este mundo não está totalmente pronto pra tanto amor.
Este mundo não está preparado para você, Sara. Mas algumas pessoas sim. E sinto-me muitíssimo grato por dizer que, apesar de um início tão conturbado para nós, cuja relação chegou ao ponto de considerá-la uma espécie de inimiga, agora posso chamá-la não apenas de amiga, mas de irmã, e dizer, sem hesitar, que eu te amo, Sara. Amo esse amor enorme que você carrega em si. E amo seu grande esforço até aqui de espalhá-lo a quem quer que esteja disposto a recebê-lo, sob quaisquer formas.
E esta noite, você dormirá em paz.
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Dedico este conto a uma amiga que é tão fascinante e tão apaixonante como Sara. Esta amiga, eu gostaria de abraçá-la agora, e dizer que a vejo como um exemplo do quanto a gente pode ir além se lutarmos contra o que nos impede de ser mais nós mesmos, e menos daquilo que esperam de nós.
Que ela continue sendo tanto quanto sempre foi, e que eu um dia consiga seguir seu exemplo.
Te amo, minha irmã, minha Sara.
Postado por Rodrigo Ferreira às 9:17:07 PM
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Quarta-feira, Julho 01, 2009
[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 3
"Spiral Stairs L" de nicky2003 (a imagem foi editada)
Se ainda não leu os primeiros capítulos, clique nos links ao lado: 1º capítulo | 2º capítulo
Os degraus formavam uma longa escada que subia em espiral bem aberta. Não havia corrimões nem nada em que pudesse agarrar-se durante a subida. Olhou para baixo e viu uma vastidão branca que se espalhava por todos os lados. Não soube definir se aquilo era melhor ou pior que as piranhas famintas.
O cenário lá no alto era mais animador, embora igualmente incômodo, para não dizer totalmente sem nexo: tufos redondos e brancos envolvidos por cubos de vidro transparente saiam de janelas vermelhas quadradas, dispersos no espaço. De onde estava não soube identificar o que eram os tufos.
O alívio sobreveio quando sentiu mais curiosidade do que medo. Procurou não pensar no que exatamente aconteceria se caísse na direção de toda aquela brancura abaixo e pisou com seu sortudo pé direito no primeiro degrau flutuante. Pareceu-lhe muito firme, mesmo não estando preso a nada sólido. Isto encorajou-a para que desse o passo seguinte. Compensou a falta de corrimões mantendo os braços abertos para equilibrar-se, totalmente atenta a onde pisava.
Sua confiança e segurança aumentavam a casa passo.
Dezenas de degraus depois já podia ver que os tufos eram árvores com galhos lotados de folhas brancas. Havia milhares delas espalhadas pelo espaço, vazando de janelas vermelhas que apontavam para o que parecia uma outra dimensão. Os degraus continuavam subindo por entre aquele verdadeiro arvoredo surrealista, congelado no espaço e no tempo em seu passo de valsa antigravitacional.
Aproximou-se de um dos cubos e notou que em cada um de seus lados trazia pequenas placas vermelhas com letras brancas coladas sobre a superfície. A primeira que conseguiu ler dizia: INACESSÍVEL. Chegando ainda mais perto, reparou que a janela de onde a árvore saia também tinha palavras escritas em branco em todos os quatro lados. Naquela estava escrito: NEGAÇÕES.
Percorreu todo o cubo com os olhos, em busca de algum tipo de entrada, mas logo concluiu que estava hermeticamente lacrado.
Sua intuição alertou-lhe de que ali havia uma pista da qual não podia desistir, algo relativo à sua identidade, e por isto, agindo puramente por impulso, agarrou o degrau acima do seu e, sem saber como, arrancou-o de sua base invisível, segurou-o firme com as duas mãos, com ele traçou um arco para atrás, e por fim acertou-o contra o cubo de vidro, que desfez-se em cacos, caindo como chuva cintilante em direção à brancura sem fim.
Três degraus vermelhos brotaram literalmente do nada no espaço que separava aquele onde mantinha-se de pé e o topo da árvore, que em relação a ela estava deitada. Avançou por eles sem hesitar.
CONTINUA...
Postado por Rodrigo Ferreira às 7:50:44 PM
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[REVIEWS] Quarteto Fantástico e Homem de Ferro:
Clássicos Antigos e Contemporâneos
Os Maiores Clássicos do Quarteto Fantástico - Volume 4
Terminei de ler ontem o 4º encadernado da fase do Quarteto Fantástico escrita e desenhada por John Byrne, e com ele eu finalmente entendi porque o material que ele produziu para o título da família super-heróica na década de 80 até hoje é considerada a melhor dentre as protagonizadas pelos personagens.
Até aqui já havia lido os 3 encadernados anteriores, e apesar de ter curtido muitas histórias, ainda não havia enxergado nada nelas que as tornasse algo inesquecível. Sim, muitas tinham idéias muito criativas, tanto pra época em que foram escritas, como para os dias de hoje. Uma das minhas preferidas, publicada no primeiro volume da coleção, é a do senhor de meia idade de vida pacata que, sem nem sequer desconfiar, ganha poderes de alterar a realidade, transformando qualquer mínimo desejo que passe por sua mente em fato real e palpável. Não demora muito para que o Quarteto se envolva, procurando uma forma de impedir que o cidadão espalhe o caos no mundo.
No segundo encadernado tivemos o deleite de finalmente ver o Galactus sendo enfrentado não apenas pelo Quarteto, como em sua primeira e clássica visita à Terra para um "lanchinho", mas também os Vingadores, o Homem-Aranha, e até o Demolidor, satisfazendo a curiosidade de quem sempre quis ver todos os principais heróis residentes em Nova York enfrentando uma das maiores crises que ela poderia enfrentar. E de quebra ainda tivemos Reed Richards, ironicamente, sendo forçado a salvar a vida do Devorador de Mundos, e Frankie Reye, a namoradinha da vez do Tocha Humana, sendo transformada no mais novo arauto da entidade cósmica.
Sim, tivemos muitas boas histórias nos volumes anteriores, mas até este 4º eu não havia "pescado" qual era o fator que tornava toda a longa fase do Quarteto produzida por John Byrne, o escritor e desenhista sensação dos fins da década de 70, e praticamente toda a década de 80, em uma das mais celebradas pelos fãs da super-equipe.
Este volume começa com o Quarteto retornando de sua missão exploratória à Zona Negativa, mostrada no final do 3º, um universo paralelo composto por antimatéria, onde as leis da física funcionam de forma diferente das existentes no nosso universo. Na Terra o Aniquilador, o vilão da vez, aciona um dispositivo que pode causar a destruição dos dois universos. Tudo isto enquanto o Quarteto Fantástico tenta encontrar um meio de voltar ao seu universo de origem, e os Vingadores procuram lidar como podem com a ameaça em seu mundo sem muito sucesso. Daí começa uma corrida contra o tempo.
Claro que a crise é resolvida, mas há baixas, e conseqüências que repercutirão ao longo das histórias seguintes. Nestas veremos casos tão fantásticos como a famosa, e igualmente clássica, destruição do Mundo Imperial Skrull, cujos efeitos são sentidos até hoje, como, por exemplo, na atual Invasão Secreta; uma cidadezinha interiorana dos Estados Unidos tendo que lidar com uma praga alienígena causada por uma das primeiras aventuras protagonizadas pelo Quarteto; e finalmente a batalha épica entre Tocha Humana, o Coisa, a Mulher Invisível, dois ex-arautos de Galactus, Tyros e o Surfista Prateado, e o Doutor Destino. Ufa! Sim, tudo isto em um só encadernado.
A fase de Byrne atinge seu auge neste volume. Fica claro que sua intenção é escrever histórias cada vez mais épicas, o que acaba culminando na batalha final vista na edição. Seu momento mais inspirado são as descrições feitas na história protagonizada por Galactus e sua atual arauta, Nova, que realçam o tom de grandiosidade cósmica de que a história fará uso em toda a seqüência da destruição do Mundo Imperial Skrull.
Byrne também gosta de explorar idéias mirabolantes, explicações pseudo-científicas elaboradas a fim de imprimir uma lógica aos eventos, por mais estranhos e bizarros que se mostrem. É uma característica do escritor, cujo estilo tem forte influência da linguagem literária. Basta, para concluirmos isto, observar a forma como ele usa o texto, muitas vezes eloqüente e um tanto rebuscado, para suprir a carência de suas imagens na tarefa de transmitir a atmosfera e o clima que deseja construir na mente do leitor, procurando tornar a leitura uma experiência mais completa.
Observando sua trajetória como escritor e desenhista do Quarteto ao longo dos 4 volumes já publicados pela Panini, é notável que a paixão de Byrne pelos personagens foi crescendo ao longo das histórias produzidas. O cuidado na composição das cenas, dos diálogos, dos textos espalhados pelos recordatórios, ainda não havia alcançado tamanho apuro como nesta seqüência de histórias.
Finalmente seu status de clássico se mostra mais do que merecido aos meus olhos, e posso, enfim, aplaudir esse artista dos quadrinhos em um dos melhores momentos de sua carreira.
Universo Marvel nº44
Meu envolvimento com o Quarteto Fantástico, se bem me lembro, começou em meados da década de 90, quando a Abril Jovem publicou por aqui a mini-série Marvels, um verdadeiro marco das histórias de super-heróis. Fiquei fascinado com a versão escrita por Kurt Busiek, e pintada com o traço fotorealístico de Alex Ross, da primeira história em que a super-família enfrenta pela primeira vez Galactus, o Devorador de Mundos, e o Surfista Prateado, seu arauto.
O tom épico, impresso nas incríveis imagens de Ross e no texto de Busiek, envolvia de tal forma o leitor, que não tinha como não se maravilhar com o que estava impresso naquelas páginas. Desde então procurei ir atrás de outras histórias protagonizadas por aqueles personagens tão fascinantes, quatro seres com super-poderes peitando um ser tão poderoso que podia destruir a Terra numa questão de horas. Não tive muito sucesso nisto pois, na época, a Abril Jovem, responsável pela publicação das histórias dos heróis da Marvel, não lançava muitas republicações de material clássico dos personagens, como a Panini hoje faz com tanta freqüência, de modos que acabei tendo que me contentar com a fase mais atual do Quarteto, que na época vinha sendo publicada numa das revistas mensais do Homem-Aranha, escrita por Tom DeFalco, se bem me lembro.
Era uma fase legalzinha, mas estava longe de apresentar aquele tom de fascinação visto naquela edição de Marvels.
Anos depois, em 2005, a Panini me ofereceu, enfim, a oportunidade de ler a fase mais marcante do Quarteto, criada por John Byrne. Minhas impressões sobre ela vocês podem conferir acima.
No final de 2007 a Marvel anunciou a mais nova equipe criativa responsável pelo título dos personagens, uma das duplas mais aclamadas pelos leitores de quadrinhos década atual, o escritor Mark Millar, e o desenhista Bryan Hitch.
Millar, um artista que adora autopromover-se, soube vender muito bem seu peixe, prometendo, assim que a notícia de sua contratação para o título saiu na mídia especializada, as melhores histórias do Quarteto desde que a dupla de criadores originais, Stan Lee e Jack Kirby, abandonaram os personagens, e John Byrne deixou o título.
Até o momento, aqui no Brasil, foram publicadas 5 histórias de Millar e Hitch, e pode-se dizer, sem dúvidas, que o escritor está cumprindo com o prometido.
A primeira história, publicada em Universo Marvel nº44, já apresenta uma série de boas idéias que certamente serão mais desenvolvidas ao longo das futuras histórias. Susan Storm, a Mulher Invisível, cria um grupo beneficente de super-heroínas; Johnny Storm, o garotão da equipe, seguindo a tendência de muitos "artistas" que enfiam na cabeça que possuem vocação musical, monta uma banda pra protagonizar uma reality show sobre seu dia-a-dia nesta nova empreitada, e ainda por cima inicia um caso amoroso com uma super-vilã; Ben Grimm, o Coisa, começa a se envolver com uma professora de ensino fundamental; e Reed Richards, o Senhor Fantástico, reencontra uma antiga paixão, cientista como ele, envolvida num projeto grandioso e impactante sobre o destino de nosso planeta.
São idéias que Millar, ao longo das 5 histórias, vai desenvolvendo de maneira equilibrada, mantendo o leitor sempre curioso com o desenrolar de cada uma deles. Não há uma subtrama desinteressante, todas soam pertinentes, e o interesse nelas vai crescendo conforme novos lances vão ocorrendo.
O primeiro arco, em 4 partes, já publicado por aqui, termina numa batalha entre força bruta e intelecto, com Reed Richards enfrentando um robô gigante com potencial pra destruir todas as instalações militares, e depósitos de armas, de maior e menor poder destrutivo, do mundo. A forma como a ameaça é eliminada é digna de uma história memorável do Quarteto.
Mas, o melhor momento da dupla de criadores está em outra cena, menos bombástica, mais intimista, protagonizada pelo casal de super-heróis. Reed e Sue comemoram mais um aniversário de casamento num restaurante, trocam impressões sobre a última batalha, sobre a antiga paixão de Reed, e por fim seus presentes. É um dos melhores diálogos já escritos para a dupla de personagens, e como se isto não bastasse, a cena tem um dos desfechos mais memoráveis da história do Quarteto, justamente pela simplicidade da idéia.
Se continuar assim, o que dois anos atrás soou como pura pretensão e autopromoção do Mark Millar, vai se tornar fato, figurando seu trabalho ao lado de Bryan Hitch como a terceira das melhores fases do Quarteto Fantástico. Porque eles vêm demonstrando que sabem o que deu certo no passado, e tem noção do que já não funciona mais atualmente.
A grandiosidade, as idéias mirabolantes, dos melhores momentos de Stan Lee, Jack Kirby e John Byrne, estão todos lá. Mas as características marcantes de Millar também podem ser encontradas nos diálogos com toques de malícia e ironias, e as cenas de ação explosivas desenhadas por Hitch, que apresenta um traço mais solto que o visto em seus trabalhos anteriores, tornando a leitura de suas cenas mais agradável e fluida aos olhos. E a mescla da antiga e da nova escola de quadrinhistas funciona maravilhosamente bem.
É um trabalho que merece toda a atenção dos apreciadores de quadrinhos de super-heróis.
O Invencível Homem de Ferro: Extremis
O Homem de Ferro é um super-herói que demorou muito pra me atrair. A idéia de um milionário usando uma armadura de alta tecnologia pra combater o crime não me fascinava, e se tem um simples fator que ainda me interessa nos quadrinhos de super-heróis é o fascínio que eles conseguem provocar nos leitores.
Essa minha visão sobre o personagem só mudou quando (olha ele de novo pintando por aqui) Mark Millar, durante a supersaga Guerra Civil, lançou a idéia de super-heróis sendo forçados a registrar suas identidades secretas junto ao governo estaduniense, para que não tornassem suas atividades ilegais. Estava armado o cenário para que heróis contra e a favor do registro entrassem em um conflito físico, ideológico e moral, que jogou amigos contra amigos. No meio dessa crise toda, uma das melhores sacadas de Millar foi pegar o Homem de Ferro e transformá-lo no maior defensor da lei de registro de super-heróis.
Todos os holofotes do Universo Marvel se voltaram para ele, e um personagem que até então não me atraía tanto se tornou pivô de um dos eventos mais revolucionários já ocorridos na editora.
Mas, meses antes da Guerra Civil explodir, Tony Stark, o homem por trás da armadura, havia sofrido um reboot em sua história. Seu título foi zerado, e as seis primeiras edições foram entregues às quatro mãos da dupla Warren Ellis e Adi Granov. Foram os seis primeiros números do renovado título os responsáveis pelo início da revolução ocorrida com o Homem de Ferro que o alçou ao patamar de um personagem que mereceu um pouco mais da minha atenção.
Ellis já começa descontruindo a figura de Tony Stark como um mero playboyzinho metido a gênio, apresentando-o como alguém tão inquieto em seu desejo de fazer algo realmente significativo para a humanidade usando seu intelecto e sua facilidade para criar as mais variadas invenções tecnológicas, que passa boa parte de seu tempo livre isolado do resto do mundo num laboratório.
Algumas páginas depois temos o primeiro grande momento de Ellis, no diálogo ácido e incisivo entre Tony Stark e um diretor de documentários investigativos, bem ao estilo Michael Moore, que adora levantar polêmicas, e confronta-o com a realidade de que boa parte de sua fortuna provém das armas desenvolvidas por suas empresas, embora Tony alegue que os recursos financeiros ganhos nas vendas das mesmas fossem necessários para o desenvolvimento de pesquisas mais importantes ao bem-estar da humanidade. A forma como Tony Stark vira o jogo faz o personagem ganhar mais uns pontos do leitor, tornando-o ainda mais apreciável.
A dupla não apenas aproveita a chance deste reinício na vida do personagem para amadurecê-lo um pouco mais, como também apresenta uma versão mais contemporânea da origem do Homem de Ferro, cuja versão clássica já estava muito datada e pouco palatável ao leitor atual, e mais adequada às idéias defendidas por Ellis a respeito das motivações do personagem (na versão clássica ela ocorria em plena Guerra do Vietnã, tornando difícil a tarefa de engolir que o cara tem quase 70 anos hoje em dia).
O escritor britânico, visando reforçar ainda mais a intenção de confrontar Tony Stark com seus próprios defeitos, introduz Maya Hansen, um antigo caso amoroso do milionário, e responsável por uma pesquisa que ultrapassa Tony em suas pretensões de viabilizar a perfeita integração entre homem e máquina, a grande idéia por trás do que o motivara não só a criar como buscar desenvolver cada vez as tecnologias que integram a armadura do Homem de Ferro. Com isto Tony não apenas é forçado a engolir seu orgulho, como também a admitir que foi superado por alguém do sexo oposto, o que acaba tornando toda a situação uma metáfora (se foi intencional eu não sei) sobre a necessidade de conciliar opostos para uma perfeita integração e progresso tecnológico, psicológico, ideológico.
Outro personagem novo que chama a atenção é Sal Kennedy, que dentro da trama funciona como uma espécie de alterego de Ellis, um xamã moderno, defensor de idéias tão estranhas e fascinantes como o uso de drogas alucinógenas para permitir à mente humana o acesso direto ao "sistema operacional do corpo humano", e o uso de alta tecnologia como aguçadora dos sentidos, entre outras, numa rápida participação que deixa o leitor quase atordoado com tantos conceitos compactados em poucas páginas, e funciona como mais um fator que impulsiona a mudança de postura de Tony Stark, vista mais adiante na história.
A própria idéia do Extremis, um componente bioeletrônico que, quando injetado na corrente sanguínea, atua diretamente no centro de regeneração do cérebro humano, e a partir dele reconstrói todo o corpo de quem o recebeu, transformando-o numa versão mais avançada, resistente e com sentidos mais apurados, é tão boa quanto as melhores idéias de Ellis vistas em Planetary, a verdadeira obra-prima do escritor.
Transformando tudo isto em imagens, Adi Granov produz quadros quase foto-realísticos, mas que não deixam de ser estilizados até certo grau. Falta um pouco mais de movimento nas cenas de ação, mas não é nada que comprometa o produto final, bastante positivo em seu conjunto.
Muitos fãs antigos do personagem criticaram esta fase alegando que, ao término dela, Tony Stark/Homem de Ferro, acaba perdendo sua característica mais tradicional: um homem comum dentro de uma armadura. Particularmente encaro a mudança no status quo do herói como uma evolução natural, condizente com seu ideal, que sempre almejou aperfeiçoar-se como homem, inventor, e bem-feitor da humanidade. Com a fase Extremis o Homem de Ferro dá seu passo mais significativo na tarefa de convergir seus maiores objetivos num mesmo plano de ação.
É Ellis, mais uma vez, em sua figura de xamã moderno, ajudando mais um herói a realizar seu "ritual de passagem", e dando mais uma memorável contribuição ao fascinante universo dos super-heróis dos quadrinhos, já bastante em débito com o escritor britânico, pai, mãe e parteiro de Authority e Planetary, dois dos melhores títulos protagonizados por estes incríveis super-seres que ainda conseguem me maravilhar.
Postado por Rodrigo Ferreira às 10:19:12 AM
Impressões, opiniões e críticas sobre este post:
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Sexta-feira, Junho 26, 2009
[CRÔNICA] Michael Jackson - A Queda de (mais) Um Ídolo
Fiquei hoje o dia inteiro pensando na forma de apresentar os fatos aqui descritos, que inicialmente se mostravam desconexos, para mais tarde se revelarem mais afins do que eu imaginava. Vou resumir o tema desta crônica com uma simples pergunta: o que a morte de Michael Jackson, a tragédia do vôo 447, e o drama de um jovem viciado em drogas têm em comum? É o que vou tentar responder aqui.
Ontem, pouco antes de voltar da biblioteca onde trabalho, soube que o irmão de um conhecido meu foi internado numa clínica de desintoxicação e reabilitação de dependentes químicos. Aquilo mexeu comigo em algum nível mais profundo, mas só me dei conta do quanto fui atingido pela notícia mais tarde, quando, já chegando em casa, fui recebido por outra: Michael Jackson fora levado às pressas para um hospital após sofrer uma parada cardíaca. Minutos depois já corriam rumores de que na verdade ele já havia morrido. Passado pouco menos de uma hora veio a confirmação.
Tenho recordações nostálgicas ligadas ao cantor, pois quando criança meu irmão do meio era um dos muitos fãs que ele tinha, a ponto de viver imitando alguns dos passos mais conhecidos do sujeito na nossa infância. Mas não estou aqui pra falar disto, e nem da carreira do artista, portanto, deixa eu voltar pra questão principal.
Um fato que vale a pena acrescentar é a minha relação com o mundo dos noticiários e jornais, sejam eles impressos ou televisivos. Já faz alguns anos que não faço o menor esforço pra sentar na frente de uma TV a fim me inteirar dos últimos acontecimentos do mundo. Adotei a filosofia de que, se for realmente importante e pertinente pra minha vida saber do que anda ocorrendo neste planeta que divido com mais de seis bilhões de indivíduos, a notícia fatalmente chegará até mim de alguma forma. E tem funcionado muito bem até aqui.
Nos últimos anos, sem parar mais que um minuto diante da televisão, fiquei sabendo da garota que foi empurrada de um prédio pelo pai e a madrasta; da garotinha, filha de pais portugueses, se bem me lembro, com uma mancha na íris de um dos olhos (não me recordo qual), que sumiu sem deixar vestígio num hotel (não me lembro de qual país); passei por várias crises do tráfego aéreo brasileiro, por um mensalão; e mais recentemente pela alardeada tragédia do vôo 447. São todos fatos dos quais me recordo vagamente, e cujas características que mais se fixaram na minha memória já estão muito bem estampadas na forma como os descrevi.
Pra fecharmos de vez esse assunto, basta dizer que minha relação com o resto do mundo é mais por uma espécie de "osmose informacional", do que por algum interesse meu pra saber dos acontecimentos que fluem em torno de mim.
Mas, foquemo-nos no vôo 447, que há duas semanas atrás era a notícia quente do momento. Sabe, me ocorreu agora que as tragédias humanas são para as redes de notícias do mundo inteiro o que o gado é para as indústrias de laticínios, carne, couro e doces, simultaneamente. E pra entender o que eu quero dizer com isto basta se lembrar do tratamento que os vários jornais do país deram à tragédia em questão.
A exemplo das últimas tragédias aéreas ocorridas no Brasil, os jornalistas, a cada dia, iam cada vez mais fundo no quadro que se desenhou com a queda do vôo. Começaram falando do fato em si, depois dos resgates, depois dos destroços, da caixa preta desaparecida, do estado de decomposição dos corpos resgatados, e numa das últimas notícias que me chegaram nos ouvidos enquanto eu trocada de roupa no quarto, tinha uma jornalista dando praticamente uma aula de engenharia aérea, explicando em detalhes o funcionamento de um dos componentes da aeronave.
Resumindo: se vestiram do couro, comeram a carne, fizeram uma gelatina de sobremesa, e beberam um bocado de leite pra ajudar tudo isto a descer.
Mas, estou novamente divagando... Bem, voltemos ao Michael! Um rapaz que, no fundo, tinha um sonho singelo: ser a criança que nunca foi, e mais profundamente ser algo que não nasceu pra ser.
Tá, deixa eu facilitar o que eu disse logo acima. Que ele queria ser branco todo mundo já tá cansado de saber. Que ele tinha uma fixação muito estranha por crianças também não é novidade. Mas o que ninguém sabe (suponho) é porque, ao receber a notícia de que ele estava à beira da morte, o primeiro pensamento que me ocorreu, ou pelo menos um dos primeiros, foi que talvez todo aquele estardalhaço em torno de sua saúde não passasse de uma estratégia de marketing para que ele voltasse a ser notícia. E algo com o qual vocês não hão de discordar é que, por mais decadente que vinha sendo sua carreira nos últimos anos, Michael sempre parecia dar um jeitinho de ser notícia. Sua imagem segurando o filho da sacada se tornou tão icônica quanto seu rosto deformado, e seus passos estilosos de dança, só pra ficarmos num exemplo.
Aliás, falando do grau de deformidade do cara, me lembro agora de uma época em que eu e meu irmão vivíamos chamando o Michael de "Boneco", porque foi esta a aparência que ele parecia se esforçar pra ter nos últimos anos. Há por aí bonecos de cera mais realistas que ele! Algo realmente preocupante (ou não, afinal, vai saber se não era justamente isto que ele queria).
Então, estava eu pensando na possível estratégia de Michael para se ver novamente sob os holofotes da mídia quando me veio à cabeça o caso do irmão do meu conhecido. Mas antes de mais nada acredito que caiba aqui uma breve descrição sobre esse conhecido: em poucas palavras, ele é o tipo de pessoa que gosta de aparecer, alguém que "chega chegando", e querendo que o máximo de pessoas presentes no ambiente tomem ciência do acontecimento que foi sua chegada até ali. Resumindo mais ainda: uma pessoa extremamente extrovertida, egocêntrica e vaidosa.
Já o seu irmão sempre me pareceu alguém ofuscado justamente por este contraste gritante de personalidades. Uma pessoa que não se sobressaia. Alguém "comum". Que entrava e dizia "oi", saía e dizia "tchau", e entre um e outro não passava de uma presença vagante sem contribuir com um fato memorável que fosse pra marcar aquele minuto em minha memória como um em que algo realmente aconteceu.
Daí, do nada, eu recebo a notícia de que o cara foi internado às pressas numa clínica de desintoxicação, sendo que até ontem eu nem sequer sabia que ele tinha problemas com drogas.
E desta lembrança que me ocorreu pensando na notícia da morte do Michael, ressurgiu a do vôo 447, que acabou sendo passada pra trás pela primeira como destaque nos jornais. São todas tragédias alheias. E esta é a resposta da pergunta que fiz lá no início.
Michael morreu possivelmente como conseqüência de um uso constante de drogas para preservar sua condição de "negro que queria permanecer branco", que por sua vez foram aos poucos deteriorando seu organismo até chegar ao ponto em que chegou ontem.
O irmão do meu conhecido resolveu aceitar a sugestão da mãe de se internar na clínica porque seu vício já havia chegado no limite do suportável.
E o vôo 447... Bom, este foi uma tragédia mesmo, pelos jornais para suprirem a falta de notícias realmente impactantes.
E aqui vai outra caracteristica que Michael, o irmão do meu conhecido, e os jornalistas responsáveis pelas notícias do vôo 447 têm em comum: a vontade de serem o foco das atenções, e a noção, mesmo que inconsciente, de que a tragédia humana dá mais audiência do que as alegrias.
Já pararam pra pensar no por quê de as pessoas responsáveis por impor censuras em filmes caem mais em cima daqueles com cenas de sexo explícito do que de violência gráfica? Minha opinião: porque a desgraça alheia faz bem à saúde doentia do ser humano, que se deleita, em algum nível de sua consciência, ao se enxergar menos sofredor do que aquele que sofre e é consumido por mais uma das inúmeras tragédias que este mundo pode reservar a cada um de nós. É como ganhar na loteria todos os dias, porque no fundo nos sentimos vitoriosos pelo fato de não ser conosco que está acontecendo aquilo.
Portanto, a tragédia atrai bem mais a atenção de quem a cerca. O prazer e a alegria alheios também, mas estes fortalecem uma doença que todos temos, aquela que faz com que nos sintamos um trapo quando vemos outra pessoa melhor do que nós. De modos que ver um casal numa cena de sexo explícito e selvagem faz mais mal a quem assiste do que ver uma pessoa sendo decapitada em todos os detalhes sórdidos e tétricos possíveis.
E quando uma pessoa não consegue chamar a atenção sobre si mesma através de um jeito positivo, agradável e contagiante... Bom, se ela for fraca de personalidade, resta umas fileiras de cocaína, um monte de cirurgiões plásticos sem bom senso, e um avião defeituoso pra servi-las.
Um ídolo morre, mais de duzentas almas se vão, e um rapaz assume que sua vida é consumida aos poucos pelas drogas que usa, e a humanidade se sente um pouco melhor consigo mesma, fazendo dos mortos e condenados seu gado.
Postado por Rodrigo Ferreira às 9:25:49 PM
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Quarta-feira, Junho 24, 2009
[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 2
"End of the line" de Ric Stultz
Começou a imaginar como conseguiria chegar à outra entrada. Tentou calcular a distância que precisaria tomar para correr, dar impulso ao seu corpo, e pular até o outro extremo do poço. Se o pulo fosse muito alto, seria agarrada pelas mãos queimadas, e arrastada pra dentro do teto de lava, onde lhes faria companhia até que outra infeliz passasse por ali, buscando realizar a mesma loucura. Caso a força aplicada fosse baixa demais, acabaria virando a próxima e aguardada refeição das piranhas famintas lá de baixo. E no meio de tantas preocupações, cálculos e hesitações, uma lembrança acendeu-se em sua mente: a bifurcação do corredor!
Sim, ela poderia simplesmente voltar até a parte em que o corredor dividia-se, e escolher a outra vertente, a da esquerda. De repente ele saía em outro lugar totalmente diferente e, o mais importante, transponível. Sim, talvez saísse. E isto era justamente o que ela iria fazer, não fosse aquilo que ocorreu assim que deu meia volta, preparando-se para retornar até lá atrás.
O corredor fechou-se diante de seus olhos, assumindo a forma de uma parede semi-esférica, exatamente como aquela em que despertara, deixando pra trás apenas um "talvez", uma curiosidade a respeito do caminho que recusara, e uma certeza de que o momento de escolha foi literalmente engolido pelo passado.
Agora tinha espaço para dar no máximo cinco passos médios até chegar à beira do poço, depois do qual havia a entrada do outro lado, sem destino certo, e antes dela as possibilidades de morrer queimada ou devorada. Seria, literalmente, um salto de fé, que exigiria o máximo de precisão, auto-controle e muita sorte.
Não queria tornar-se prisioneira da própria indecisão, num corredor que terminava num beco sem saída, e começava na boca bifurcada da morte. Teria apenas uma chance. Sua cabeça ainda era um febril desfile cálculos inconclusos de probabilidade quando optou por mandar todos eles para os diabos, sair correndo do final do corredor e, terminando a breve corrida com o pé direito metade pra dentro e metade pra fora do poço, flexionou a perna sustentada por ele, e saltou sobre o abismo da morte carnívora, passando longe de suas bocas de dentes afiados, e roçando os cabelos de fogo nos dedos de peles derretidas pendentes daquele teto impossível, esfomeados de dor e sofrimento eternos.
O salto só não foi perfeito porque caiu do outro lado de barriga no chão, batendo forte os seios protegidos apenas pelo fino tecido do vestido. Doeu muito na hora, mas a dor foi superada pelo alívio que invadiu-lhe o ser, gritando mais alto que qualquer sensação.
Deitou-se de costas e assim ficou por alguns minutos, massageando os seios para aliviar a dor, retomando o fôlego e deixando o coração normalizar suas batidas.
Dor aliviada, fôlego retomado e coração normalizado, pôs-se de pé novamente, encarou por breves segundos o corredor à sua frente, constatando que era igual ao outro, e seguiu adiante. Mal começou a desbravá-lo quando já pôde ver seu final anunciando-se. Aparentemente dava também para um espaço mais amplo, e só esta possibilidade foi o bastante para que ela começasse a desejar fervorosamente que não fosse obrigada a realizar um outro salto insano como aquele. Mas, conforme os passos aproximavam-na do final, logo reparou que o desafio, se é que havia um, seria outro agora: avistou degraus vermelhos, finos como tábuas, que literalmente flutuavam no ar.
CONTINUA...
Postado por Rodrigo Ferreira às 8:54:10 PM
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[REVIEWS] Invasão Secreta, Trama Internacional e 24 horas
Neste final de semana eu dei um tempo pra maratona de leitura que venho fazendo da série de livros A Torre Negra, o projeto de estimação de Stephen King, que a cada volume se torna mais viciante (qualquer hora eu falo um pouco dela por aqui). Fiz isto pra me atualizar dos últimos lances da saga Invasão Secreta, da Marvel Comics, que vem sendo publicada aqui no Brasil desde abril.
A premissa, pra quem ainda não conhece, é a paranóia causada na comunidade super-heroística quando uma invasão alienígena em escala global é realizada pela raça transmorfa conhecida como Skrulls, o que gera um problemão pra praticamente todas as equipes de superpoderosos do mundo, pois elas podem ter algum alien infiltrado se fazendo passar por um companheiro de combate.
Invasão Secreta funciona em pelo menos três níveis. Temos a mini-série em 8 edições que é o carro-chefe da história, a partir da qual se ramificam episódios mais centrados em cada subtrama que é apresentada nela de forma vaga e sintética. Destas ramificações surgem outras, mais centradas em personagens específicos, e episódios mais tangenciais, ocorrendo em paralelo, mas sem relação significativa com a saga maior.
Eu optei por acompanhar apenas a mini-série principal, e a participação dos dois títulos dos Vingadores, publicados, respectivamente, em Novos Vingadores, e Avante Vingadores.
A mini-série é basicamente a história sendo contada em formato blockbuster. Pra quem tá afim de ver só um monte de heróis paranóicos lutando uns contra os outros sem saber em quem confiar no que diz respeito à sua verdadeira identidade, ela não decepciona. Tem muita porradaria, explosões, seqüências de ação, mas até o momento não esclareceu muito a respeito das origens da conspiração skrull, que é o que mais têm mantido o meu interesse na história.
Particularmente tenho gostado mais dos episódios que exploram mais a fundo o que é mostrado apenas de relance na mini, em particular os vistos em Novos Vingadores e Poderosos Vingadores, ambas escritas por Brian Michael Bendis, que, como de costume, capricha nos diálogos, e apresenta explicações convincentes sobre a forma como a conspiração skrull se construiu até chegar ao ponto em que consegue derrubar tantas defesas ao redor da Terra num sincronismo jamais visto.
É a velha história da invasão alienígena, já muito desgastada nos quadrinhos, sendo levada às últimas conseqüências.
Dentro das histórias "menores" ligadas tangencialmente ao evento, o destaque fica pra trama paralela que vem sendo publicada no título Universo Marvel protagonizada por Hércules e seu parceiro-mirim Amadeus Cho, onde deuses de diversas culturas e religiões se reúnem numa conferência para montar uma equipe de divindades a fim de combater o panteão skrull, que também tem uma parcela de participação na saga. Por serem histórias que optam por encarar a saga de uma forma mais leve e bem humorada, contrastando com o clima tenso e paranóico que ronda os outros títulos que a compõem, já merece uma lida.
E no cinema...
Assisti Trama Internacional hoje, o novo filme do diretor Tom Tykwer, o mesmo que em 1998 foi o responsável pelo hit Corra Lola, Corra. Desta vez ele trabalha com Clive Owen e Naomi Watts no elenco, numa história de ação e suspense que explora um tema que já não é mais novidade dentro do gênero: indivíduos idealistas combatendo a corrupção das grandes corporações em sua fome insaciável por lucrar cada vez mais com a promoção de guerras em países do terceiro mundo.
O filme inteiro é tenso, traz interpretações que se equilibram, sem que nenhum ator chegue a se sobressair. Enfim, tudo muito eficiente e na medida certa.
O maior destaque, e principal fator que faz valer o ingresso, fica pro tiroteio dentro de um museu cujas galerias são dispostas em espiral ascendente. É o grande momento do diretor e do responsável pela edição e montagem do longa.
O final não poderia ser mais angustiante. Bem "mundo real" mesmo, embora, ironicamente, ao assisti-lo, eu tenha me lembrado do lema da Hidra (uma equipe de supervilões terroristas da Marvel, que por sua vez tem seu conceito baseado na criatura mitológica): "Corte uma cabeça, e outras duas crescerão em seu lugar."
Ah sim, e o vilão principal do filme, interpretado por Ulrich Thomsen, é uma mistura de Quentin Tarantino e Sting:
Recomendo.
Enquanto isto, em 24 horas...
Estou quase no final da 7ª temporada, que vem se mostrando uma das melhores desde a 3ª. Eu realmente não faço idéia de como o Jack Bauer vai se safar da situação em que se encontra e sobreviver pra voltar na já confirmada 8ª temporada da série.
Os roteiristas foram bem ousados até o ponto em que assisti. Sobrou ataque terrorista até pra Casa Branca desta vez. E até o momento gostei de ser pego de surpresa diversas vezes achando que estava perto de saber a origem da ameaça da vez, quando na verdade estava bem longe disto.
Vem sendo também uma das temporadas que mais vezes deu a entender que a crise estava definitivamente resolvida só pra, minutos depois, jogar os personagens de encontro a outra, e felizmente sem ter forçado a barra, como já ocorreu em algumas das últimas temporadas, especialmente na 5ª. Meus parabéns aos roteiristas.
Se conseguirem manter o nível apresentado até aqui, talvez ainda reste esperança de pintar uma 8ª temporada que feche com chave de ouro a saga de Jack Bauer, um dos heróis mais trágicos a pintar numa série de TV. E Kiefer Sutherland continua mostrando o trabalho de interpretação competente que vem segurando a série nas costas desde seu início, há 7 anos atrás, sendo explosivo e durão quando é necessário, e comovente quando precisa fazer com que nos importemos com o destino de seu personagem. Que continue assim até sua despedida, que talvez ocorra no próximo ano. Vai deixar saudade.
Bom, vou ficando por aqui. No próximo post tem o 2º capítulo de As Árvores da Memória. Ah, ainda não leu o primeiro? Então clique aqui e confira.
Postado por Rodrigo Ferreira às 12:36:18 PM
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Sexta-feira, Junho 19, 2009
[CRÍTICA] Adrenalina 2
Titulo original: Crank 2: High Voltage
Titulo no Brasil: Adrenalina 2
Duração: 96 minutos
Gênero: Ação
Direção: Brian Taylor, Mark Neveldine
Roteiro: Mark Neveldine, Brian Taylor
Ano: 2009
País de origem: EUA
ELENCO
Jason Statham (Chev Chelios)
Amy Smart (Eve)
Corey Haim (Randy)
Dwight Yoakam (Doc Miles)
Bai Ling (Ria)
Joseph Julian Soria (Chico)
Clifton Collins Jr.
Efren Ramirez (Venus)
Holly Weber (Goldie)
Se em determinado momento de Adrenalina 2 você desconfiar que seu vizinho de poltrona no cinema te sacaneou jogando anfetamina em pó no seu copão de Coca-Cola, não se desespere, é efeito do filme mesmo, que praticamente não dá descanso ao espectador em seus esporros frenéticos de ação.
Continuação do longa de 2006, Adrenalina 2 já começa com a primeira das muitas referências ao mundo pop que recheiam o filme, recaptulando os momentos finais da produção anterior no estilo daqueles games antigões do pré-histórico Atari. Corta pra explicação de como Chev Chelios sobreviveu à queda de helicóptero que encerra o primeiro filme, numa das cirurgias de transplante cardíaco mais porcas já filmadas. Ele logo dá um jeito de fugir do lugar onde é usado como doador involuntário de órgãos após saber qual seria a próxima parte que arrancariam dele pra satisfazer os desejos sexuais de um mafioso. Se até o final desta cena você ainda não tiver sacado qual é a intenção dos realizadores do filme, os caras facilitam sua vida na primeira seqüência de ação, que termina com uma das cenas de tortura mais inusitadas já concebidas, envolvendo um cano de espingarda indo aonde nenhum outro jamais ousou se enfiar.
Daí pra frente a "história" do filme começa pra valer, com o matador de aluguel inglês esquentadinho, interpretado por Jason Statham, numa corrida que percorre todo o filme em busca do coração que lhe roubaram pra salvar a vida de outro mafioso (um dos muitos que inundam o filme). Para permanecer vivo até encontrá-lo ele terá que manter carregado um coração elétrico que implantaram provisoriamente em seu peito, enquanto tenta sobreviver aos muitos reencontros com uma série de inimigos de seu passado que só pensam em fuder com a vida dele. Está apresentada a premissa de um dos filmes de ação mais porra-louca já feitos.
Tenha em mente pelo menos 6 fatos relacionados a Adrenalina 2:
1º) Chev Chelios é um inglês muito puto que não economiza na hora de pensar nas formas mais sacanas e bizarras de manter seu coração elétrico carregado, o que dá origem a cenas que vão do hilário ao altamente non-sense, o que me fez respeitar a coragem de Jason Statham, e sua parceira de elenco, Amy Smart, na cena mais constrangedora e absurda do filme (o que, acredite, é um feito em um filme com tantas outras), a qual potencializa a idéia de outra cena vista no filme anterior;
2º) Tem tiroteio que não acaba mais. Dentro de boate de striptease, num puteiro, dentro de uma limosine (num dos muitos momentos WHATAFUCK de Adrenalina 2);
3º) É o único do gênero que apresenta um personagem com uma doença rara, a TCT (o significado da sigla só assistindo mesmo pra descobrir), o que rende algumas das cenas mais hilárias do longa;
3º) Nunca os chineses foram representados de maneira tão estereotipada em um filme;
4º) A frase FUCK YOU, CHEV CHELIOS vai ficar por um bom tempo rondando sua cabeça;
5º) É um longa de ação feito pra machões machistas (e, não, eu não estou sendo redundante ao dizer isto), o que nos leva ao próximo fato;
6º) Nunca as mulheres foram tão ostensivamente representadas como objetos de cena como neste filme, o que faria Rorschach, de Watchmen, sair do Cine Utopia de sua Nova York dizendo algo como:
Mais explícitos que os closes sexuais reservados para as muitas mulheres que se exibem no decorrer da película acho que só mesmo em um filme pornô, o que talvez tenha feito os diretores se sentirem um tanto culpados por isto e incluírem a seqüência na qual atores de filmes do gênero aparecem pra interromper uma perseguição de carros com um protesto reivindicando o aumento de seus salários.
Mas, não dá pra não se deixar afetar pelas cenas de ação, todas embaladas por rock pesado e heavy metal, que casaram perfeitamente com a correria infernal de seu protagonista e as seqüências de tiroteio, funcionando tão bem nestas a ponto de em muitas delas os diretores do longa optarem por omitir o som das balas disparando e substituí-lo pelas batidas rápidas e intensas das músicas. Para os fãs do gênero é um prato cheio, que me fez lembrar daquelas propagandas de esportes radicais tão comuns em SporTV's e ESPN's da vida, cheias de cortes rápidos, e cenas de tirar o fôlego.
A montagem e edição do filme é ótima. E mesmo tento muitos cortes rápidos, estes não são daquele tipo horrível que confundem mais do que esclarecem o que está acontecendo (mas, não recomendo àqueles com labirintite e epilépticos).
Deu pra notar que todos os atores curtiram muito a zueira total que permeia todo o longa, que cede espaço até pra uma homenagem pra lá de nostálgica aos fãs de super sentais, sem nenhuma razão de ser, só porque deu vontade mesmo (impressão que temos de um punhado de outras cenas). É este o espírito de Adrenalina 2, a ação pela ação.
Enfim, é um filme pra NÃO se assistir acompanhado de namorada, esposa ou pretendente. Adrenalina 2 é pra sentar, relaxar, e aproveitar o gozo de uma hora e meia que é esse representante insano e "cheirado" que ele parece ter orgulho de ser, e fazer questão de que não está nem aí pra quem não quer aproveitar o que ele proporciona, mensagem esta que Chev deixa bem clara em sua última cena antes dos créditos finais (recheado de cenas extras, portanto, não saia do cinema antes das últimas letrinhas subirem na telona).
Postado por Rodrigo Ferreira às 9:31:08 PM
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